Sunday, January 29, 2006

Insónia

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite -
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu setimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o Universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu podesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos -
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente.
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo - sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto...Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos


[eu nem sou fã dos Pessoa's, mas uma vez andava pelo mundo cibernáutico, porque alguém precisava de poemas, e descobri este...achei lindo...toca-me sempre de várias maneiras, e quase sempre de maneiras diferente...]

9 comments:

sancie said...

ADORO Álvaro de Campos!!!! Não tem sequer comparação com os outros heterónimos e com o ortónimo. O homem, que n realidade n o é, era brilhante!!!!

eli said...

este poema tem tudo a ver com a xary. lol
é um poema bonito. não gosto mto de pessoa talvez pk nunca me dei ao trabalho d eo conhecer mas dmito que ele rula mto.
bjinhos

Astro Friend said...

Muito fixe este poema, não conhecia. Diz muitas verdades, sabes? As Insónias são terríveis!
Ao contrário de ti, gosto do Pessoa. Admiro-o pelos seus escritos, mas também porque o estudei quando andava a aprender Astrologia. Não sei se já te disse um dia, mas ele também foi Astrólogo e dos bons! Previu a sua própria morte e, para além disso ele tinha a certeza que só após a sua morte, os seus escritos fariam sucesso.

Continua a postar coisas bonitas e significativas.


Um beijinho,

Astro Friend.

Rogério said...

Hum... o facto do blogger não suportar copy-paste é lixado, n é? LOLOL. just a thought!... LOLOL bjs ***

=)

Cláudia said...

Ke mais há a dizer? Pessoa e basta!
Adorei este poema, fikei absolutamente fascinada por ele. Todo ele é sentimento, todo ele é tudo! 5*

;)

xary said...

só tenho a dizer que a minha inner light ficou mais brilhante após me teres mandado este poema. é que é maravilhoso. como tudo em álvaro de campos. e disse tanto na altura por ser exactamente isso que sentia e me passava pela cabeça. e agora continua a dizer imenso mas é mais ao nível da admiração pela poesia, pela realidade das palavras. just wonderful, love it!

marina said...

sim, xary, kdo te mandei o poema foi mm no right timing..até para mim fez sentido de uma maneira que agr ja n faz..mas la ta..faz de outras maneiras

bj*******

Jason James said...

Tenho de concluír que este poema toca-te sempre de maneira diferente pois ainda não tiveste a capacidade cógnitiva de o entender na totalidade...lol

WHO DA MAN!?!?

anokas said...

Gostei bastante. VOu responder com outro senhor da literatura portuguesa...sem palavras. Jose Luis Peixoto:

não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito
ficou vazio depois de partires, o teu sorriso existia
ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua
imagem.

não penso para onde foste poque o meu peito, sem
ti, fica atravessado por lâminas. tenho um silêncio
dentro. toco os sítios onde estiveram as tuas mãos.
sinto o que sentiste.

fico acordado de noite, com a esperança secreta de
que possas regressar.