Wednesday, March 23, 2011

feliz 62º aniversário, Pai.



<3


Saturday, March 19, 2011

feliz dia do pai, Pai.



Tuesday, March 08, 2011

carta ao pai #8

pai,

sequência interessante de acontecimentos: aniversário da mãe ontem. hoje de manhã fomos as três ao cemitério escolher todos os pormenores da tua campa. o rex morreu à tarde.

acho que a mãe não se ressentiu muito pelo aniversário dela. quis ir ao cemitério, mas tirando isso, nada de especial. eu não fui porque tenho estado doente. jantámos por cá. e pronto. foi mais ou menos um dia como todos os outros.

a tua campa vai ser simples. não básica, mas não demasiado ornamentada. vamos pedir um pergaminho, se o senhor fizer, porque é mais giro. esperemos que aquilo que queremos não fique mesmo demasiado caro. lembrei-me que talvez pudéssemos pôr alguma quadra de um poeta que gostasses. a mana lembrou-se uma coisa que tu dizias do bocage - meia palavra dita e eu, como boa entendedora, reconheci logo o que era.  há tantos anos que não a dizias. depois fui ver e não era bocage, mas antónio aleixo. e o que a quadra que tu nos dizias do antónio aleixo era esta:

sei que pareço um ladrão,
mas há muitos que eu conheço,
que não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.

é a tua cara chapada e, se calhar, se não fosse pela palavra ladrão até insistia para pormos isso algures na tua campa. depois, tive a ler um bocadinho sobre o aleixo e percebi por que motivo gostavas das coisas dele. são breves, directas, por vezes, cínicas e irónicas, e combinam bem contigo. (sim, hei-de comprar um livro dele) é só que a lenga-lenga das saudades e das filhas, esposa e netos e a família toda é.... nhecs. queria lá pôr algo mais teu. algo que tu dissesses (um dia fui a belas, e em belas belas vi, mas a bela que  eu lá vi, eras ti - sim, também sei que não é da tua autoria), algo que nos fizesses reconhecer-te (não digas mal do velhinho, que tu vais pelo mesmo caminho - tua autoria?).
é possível que sim. esta semana, a mãe vai combinar com o senhor para lhe mostrar o que queremos e acertar esses pormenores.

e agora o rex. tenho o coração pesado de culpa que tu nem sabes. quase tão pesado como quando ficaste com a pancreatite e eu e a mana quase que batemos com as cabeças nas paredes de tanta dúvida, se teria sido por nossa causa que tinhas ficado assim.
bem, já sabias que ele estava doente, eu já te tinha contado. mas hoje foi demais, começou com mais ataques e mais fortes e custava-se muito a mexer e a mãe, já sabes, rainha da inacção, ai que o cão morre. mas eu pensei, o caraças! o caraças se eu deixo o cão do meu pai morrer assim. na verdade, pensei em inglês, mas não vale a pena falar contigo em inglês. e desatei a ligar para tudo o que era sítio (o facto de ser feriado não ajudou em nada) e a mãe sempre a dizer que não queria tratamentos e para eu ver se era muito caro, que o rex não era uma pessoa.
sim, ok, não é uma pessoa, mas é para deixá-lo morrer assim?
liguei, liguei. já com lágrimas derramadas e o caraças se eu o deixo morrer assim.
e lá consegui um hospital veterinário, no barreiro, que não faziam domicílios hoje, mas expliquei a situação e lá vieram. isto foi antes de almoço. só podiam vir às 15h30. que espera insuportável e eu sempre a espreitar o cão, que ora tinha outro ataque e ficava ali deitado no chão, ora andava à deriva pelo quintal, a ir contra as coisas, já todo sujo, de tanto se roçar no chão. e quando chegaram, fui lá sozinha recebê-las e comecei logo a chorar (a surpresa!) e ainda o examinaram e viram as análises que ele fez e a medicação que estava a fazer e ainda tive um bocadinho com ele e depois, pronto, terminaram-no. eu autorizei que o matassem.
a veterinária olhou para mim, qual senhor da agência funerária no dia do teu funeral, e eu, novamente, acenei com a cabeça.

sim, matem o meu cão.
sim, enterrem o meu pai.

ainda me perguntou se queria ficar ali a assistir e eu pensei, fiquei até ao fim de um, fico até ao fim do outro. e fiquei. e ele morreu dentro de muito pouco tempo e já não ia sofrer nunca mais. e eu devia estar aliviada, não é? consegui tomar a difícil decisão de lhe aliviar todo o sofrimento, mas só senti culpa. achas que ele me perdoa o que fiz? ele estava morto e era por minha causa.

(tu tiveste a pancreatite e seria por nossa causa?)

e não há mais rex. os homens estão a deixar esta casa.

mas antes de ele morrer, quando estive com ele, disse-lhe mentalmente para te encontrar a ti. espero bem que o tenha feito.

# 96


1999 - 2011

the waiting drove me mad

novamente, decisões de vida e morte.
é como se eu assinasse sentenças, agora.
e decido onde fica o corpo.

Saturday, February 26, 2011

carta ao pai #7

pai,

novo desenvolvimento: aumentei o volume do rádio do carro. sem mudar a estação. sim, tenho ouvido a antena 1. desculpa, mas não tive coragem de mexer nos teus postos de rádio. de mudar aquela que foi a última escolha que fizeste em vida no rádio do teu carro.

isto significa que tenho ouvido fado e notícias e relatos de futebol.
há relatos que não nos interessam.

mas esta semana, apanhei o final do benfica com o estugarda. e sabes o que aconteceu? apercebi-me que estava no teu carro, a ouvir o teu posto de rádio, a ouvir o clube do qual tu me ensinaste a gostar ganhar um jogo, a caminho de uma casa na qual tu já não vives.

descobri segundos depois que já estou extremamente treinada a conduzir e a chorar em simultaneamente. achas que se tiver um acidente e disser "eu estava a chorar porque o meu pai morreu" é motivo suficiente?

percebi que onde mais choro é no carro, porque não tenho de fingir o que quer que seja. sou só e o teu carro e sei que tu não levas a mal. acredito genuinamente que ninguém teria paciência para o que se passa dentro de mim. e sei que tu não levas a mal.

ultimamente, tenho-me apercebido que quando me sinto melhor é quando não me lembro que morreste. e nos últimos dias, tenho-me lembrado muito de que morreste. acho que foi muito pelo carro, sabes? o ter realmente de tomar iniciativa para tratar do teu carro (sim, eu sei que é meu, mas é teu). e a bárbara fez anos.

e daqui a uns dias é março.

é março, pai.

tu e a mãe fazem anos em março.

estás a perceber?

não?

o que eu quero dizer é: acaba lá com esta merda e volta para casa.

não vês que tenho saudades tuas que parece que me apertam o peito e me tiram o ar dos pulmões?

Monday, February 21, 2011

carta ao pai #6

pai,

em dias de jogos voltavas do café e dizias-me os resultados e contavas-me peripécias. e se o benfica ganhasse, até me trazias um chocolate.

ninguém percebe o que foi a semana passada. e ninguém compreende o que é e será esta semana. e estamos aqui estamos em março.

e a bárbara fez anos.

e é como se fossemos feitas de algum material que guarda vácuo no interior. é como se eu já tivesse visto melhores dias.

está tudo bem com o carro. passou na inspecção. quem fez a inspecção foi o macieira, que trabalhou com a mãe. foi uma coincidência engraçada. e ainda me hás-de dizer que raio fizeste tu ao carro no ano passado para ele precisar de tanta coisa este ano.

escolhemos a tua foto. estamos em processo de escolher a tua campa. queria tanto saber se fica tudo a teu gosto.

queria tanto saber.


ah, o benfica ganhou.
deves-me um chocolate.

Friday, February 18, 2011

#95

às vezes farto-me de abraços electrónicos.

Monday, February 14, 2011

carta ao pai #5

pai,

3 assuntos:
a carta;
a oficina;
o rex.

sexta-feira quando cheguei a casa, estava lá, em cima da máquina de lavar uma carta. dizia assim JOSÉ ANTÓNIO CALADO e por baixo tinha a nossa morada. era uma carta de santa marta, a remarcar a tua consulta com o doutor sérgio. nós gostávamos do doutor sérgio, lembras-te? foi quem esteve connosco quando se deu a tua primeira operação. à perna esquerda, lembras-te? lembras-te, pois. disseste que foram as piores dores que alguma vez tinhas sentido. não me esqueci do pacote de leite. oh, que fui buscar às máquinas e depois ouvimos dos médicos que não te devíamos ter dado nada. sim. mas pronto, recebemos essa carta. fiquei a olhar para ela uns tempos, a pensar se não seria suposto os hospitais comunicarem entre si. mas depois, lembrei-me que no dia do teu funeral, a mana recebeu uma chama do próprio IPO para saberem como te estavas a dar com a medicação. por isso.

hoje, fui à oficina, ao senhor onde íamos deixar o rover. não faço ideia do que andaste a fazer com o carro, por isso achei melhor levá-lo lá antes de ir à inspecção (sim, já a marquei para sábado e não, a senhora do seguro ainda não me ligou). comecei a falar com o senhor, a explicar que queria lá deixar o carro amanhã, mas que como ia para lisboa, precisava de saber a que horas fechavam e tal. e olhou para mim, até que eu disse. ou melhor, não disse, enchi a boca com estas palavras "eu sou a filha do zé calado." uff, que insuflação de orgulho que se deu no meu peito. e ele disse "sim, sim, eu lembro-me. então, e como é que está o seu pai?" e aí parou tudo. "o meu pai já faleceu" e lá veio a mãozinha repousar no meu braço "ah, os meus sentimentos" e ele continuou porque já tínhamos falado de como o pai dele também tinha morrido de cancro - tu lembras-te disso, foi no verão passado, quando lá estivemos. mas eu vai de seguir a falar do carro; filtros e óleo e faróis e travões e tudo e tudo. não vou é alinhar a direcção, não sinto que o carro precise.
mas é estranho. fez ontem 3 meses que tu morreste e ainda dou por mim a dar essa "notícia" às pessoas. não é suposto, pai. não é suposto eu ter de estar sempre a dizer que morreste. assim, tenho de ter sempre isso presente, percebes?
não quero pensar que morreste, pai.

mas o último assunto que me traz aqui hoje é o rex. liguei à mãe há bocado, porque ela de manhã tinha ido ao cemitério, mandou-te fazer um coração de flores pelo dia dos namorados. oh, o que tu ririas com isso. tu que não ligavas a nada dessas coisas. acho que se eu alguma vez te desse uma prenda no dia do pai ficarias ofendido. não gostavas nada do conceito de haver um dia para uma coisa. pai eras tu todos os dias. ainda és. eu ainda digo que sou tua filha, não digo que fui. sou. SOU.
mas pronto, estava a falar com a mãe e ela começou a contar-me que quando chegou a casa, foi dar com o cão deitado, assim meio a babar-se e com a cabeça a abanar, como se fossem convulsões. tem as pernas traseiras paradas - pelo menos foi isso que percebi, que não as mexia. ligou para os brejos e para a quinta do conde, mas não tinham veterinários para irem a casa. por isso, ligou ao tio joão que lá conseguiu alguém do barreiro. e não tarda muito vão lá vê-lo. mas a mãe acha que ele está mesmo a morrer a já não acredita que ele se levante dali.
sim, está velhote. mas também deve ter muitas saudades tuas. às vezes noto que este cão foi diminuindo de vida à medida que tu próprio ias ficando doente. eras tu quem brincava com ele, andavam os dois aos pulos feitos doidos no quintal. mas depois com a doença, foste ficando mais fraco e mais preso a casa. e ele também se foi tornando mais pachorrento. pode ser que te queira fazer companhia. aí. onde quer que tu estejas, pai. 

penso muito em ti, mas tu sabes isso. ontem, lá me pus a ouvir-te novamente.
sabes que até voltei atrás para ouvir a tua gargalhada mais de uma vez?

eras tão palhaço. oh, vê lá, nunca ralhaste comigo por te chamar estas coisas quando eras vivo, não vai ser agora que não as vou dizer.

houve muita coisa tua que perdurou.
mas é engraçado como os animais que nos deixaste começam a ir.
primeiro, o gaio e agora o rex.
é como se de certa forma quisesses que começássemos de novo. uma vida liberta das amarras do cancro.

ontem, na missa, a mãe disse que gostava de ir a fátima a pé. aproveitei a minha onda do "queremos fazer, fazemos" e fui logo falar com a marta à sacristia (?), para saber se a mãe ainda podia ir. pode. mas depois começou com coisas de ser muito cedo e não sei quê. mas eu e a mana estamos a fazer uma forcinha para ela ir.

não te vou falar das coisas que ando a fazer, que tu já sabes o que ando a fazer e o que ando a pensar. e nunca comentas nada, és incrível.

és meu pai.


Sunday, January 30, 2011

carta ao pai #4

pai,

há umas semanas, comprei um livro sobre mulheres que perdem os pais - típico meu. e a autora tinha uma cassete com a voz do pai. e eu pensei que não tinha nada teu desse género.

mas, nem sabes! lembras-te quando em 2007 fomos alentejo, com a mana?
hoje, estava à procura de uma fotografia que o guilherme me tirou em tempos e descobri a pasta desse passeio. com vídeos...
e sim, tu apareces nos vídeos e sim, ouve-se coisas ditas por ti.
e a primeira coisa que pensei quando me apercebi disso foi "merda". estava eu realmente pronta para te ver e ouvir?
o melhor vídeo é aquele em que me esqueci do telemóvel ligado, a filmar, dentro da mala e se houve a nossa conversa (incrível como o melhor vídeo tem como origem a minha distracção). eu, com o mapa, a ver para onde vamos - íamos para a barragem do alqueva -, tu a comentar e a mãe a tentar perceber o que dizemos, enquanto gozamos os dois com ela.
a certa altura, tu até a chegar a mandá-la embora para o carro da mana.
o que eu ri quando disseste isso.

chorei um bocadinho quando te vi e ouvi, mas acima de tudo, ri bastante com as coisas que dizias. com o teu tom de voz. o teu. não que tinhas nos últimos meses, depois da corda vocal parada. mas o teu.

tu a dizeres coisas sobre as árvores, as pontes, os rios, "o alentejo profundo".

e estou um bocadinho feliz por saber que sempre que quiser, posso-te ver a andar, a sorrir, ouvir-te a falar e a rir. e acima de tudo, saber que nessa viagem, eu estava sempre contigo, porque fazíamos uma boa dupla em viagens destas.

e fizemos sempre uma boa dupla, até ao teu fim.


obrigada por todas as boas recordações.
mais beijinhos cheios de saudades.

Wednesday, January 19, 2011

carta ao pai #3

pai,

coisas do dia que explicam a decisão que tomei há pouco mais de uma hora: a menina de manhã, o bolo de aniversário e the winter of our discontent.
tinha tempo, sai na praça de espanha. assim que vi as luzes do pavilhão central, quis correr para lá. quis correr até ao pavilhão de medicina, subir ao 2º andar e implorar que me deixassem entrar no quarto onde te vi vivo pela última vez. mas fui muito devagarinho, a observar cada janela, cada porta do IPO. devo ter demorado uma eternidade a percorrer a rua. até parei em certas alturas só para ver melhor. acho que pintaram as paredes do muro, mas como era noite, não tive a certeza. um dia volto lá. quero entrar lá novamente e percorrer determinados corredores, visitar determinados quartos. ajudar até, se for preciso.

sabes, tenho-me lembrado muito do senhor bengaló. nunca mais soubemos dele. a mim custa-me, porque quando saíste do hospital, eu tinha dito que ainda voltava para o visitar e depois acabei por não ir.
a mãe falou com a mulher do senhor armando em dezembro. acho que ela ligou para nos desejar bom natal. ainda não sabia de ti. e disse que não ia contar ao marido. lembro-me também do senhor joão, com quem acabaste por não comer as sardinhas. não sabemos o que é feito dele, também. e tenho-me lembrado do senhor vitor.
lembro-me quando te ia visitar. estavas no recobro. eu falava contigo e tu deslocavas o teu corpo para vê-lo na cama dele. eu ficava chateada, porque estava ali contigo, a perguntar por ti e a contar-te coisas e tu só querias saber do homem que estava a morrer.
lembro-me de muita coisa.
há pouco tempo, lembrei-me de quando estávamos os três a sair e eu tive de te dizer que estavas doente outra vez. lembro-me perfeitamente do sol que fazia. do sufoco que senti por ter de ser eu a pronunciar aquelas palavras. as palavras que acabariam por ser a tua sentença de morte.

não fui para o emprego novo. sei que fiz o que gostarias que tivesse feito, mas não foi por isso que o fiz. foi por achar que era o melhor a fazer. é engraçado, perguntei a opinião de muita gente e custou-me muito não ter a tua, mas só depois de decidir me apercebi que, muito possivelmente, nunca a teria tido. tu, em certas coisas, nunca nos dizias o que fazer. preferias sempre que fossemos nós a escolher determinados caminhos.

o gaio morreu. mas eu e a mãe vamos limpar e pintar a gaiola e arranjar mais passarinhos. acho um bom sinal ela querer continuar a ter pássaros.

sabes, às vezes quando vou para casa, há quem siga o teu carro com o olhar.
e eu percebo.
eu também queria que fosses tu a conduzi-lo.

até qualquer dia.
até sempre, pai.

Friday, January 07, 2011

carta ao pai #2

pappy,


fui hoje a uma entrevista de emprego. em princípio, tudo indica que posso ficar com o lugar. queria muito muito correr para casa para te contar. sempre ficaste muito orgulhoso, como mesmo depois de ter arranjado trabalho, continuava a receber chamadas de outros sítios. mas não ias cá estar, então chorei pelo caminho.
no tal escritório/empresa há um josé? é um sinal teu? se for, dás-me outro sinal?

a mãe não me perguntou nada.

tenho saudades tuas.

marina.

Friday, December 31, 2010

leituras 2010

  1. Life is Elsewhere, Milan Kundera
  2. Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira
  3. Taming the Tiger Within: Meditations on Transforming Difficult Emotions, Thich Nhat Hanh
  4. Morreste-me, José Luís Peixoto
  5. Nos teus braços morreríamos, Pedro Paixão
  6. The Idiot, Fyodor Dostoyevsky
  7. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
  8. Platero e Eu, Juan Ramón Jiménez
  9. Lonesome Traveler, Jack Kerouac
  10. As I Lay Dying, William Faulkner
  11. Eat, Pray, Love, Elizabeth Gilbert
  12. Man in the Dark, Paul Auster
  13. Um, Ninguém e Cem Mil, Luigi Pirandello
  14. Pantajali's Yoga Sutra
  15. Uma Casa na Areia, Pablo Neruda
  16. Provavelmente Alegria, José Saramago
  17. The Dharma Bums, Jack Kerouac
  18. Talking it Over, Julian Barnes
  19. Of Mice and Men, John Steinbeck
  20. White Castle, Orhan Pamuk
  21. The Bird, Oh Jung-Hee
  22. O Arquipélago da Insónia, António Lobo Antunes
  23. Nenhum Olhar, José Luís Peixoto
  24. O Amor é Fodido, Miguel Esteves Cardoso
  25. Equador, Miguel Sousa Tavares
  26. Love, etc, Julian Barnes
  27. Wherever You Go, There You Are. Mindfulness Meditation for Everyday Life, Jon Kabat-Zinn
  28. Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie
  29. O Caso da Baía de Pollensa, Agatha Christie
  30. Morte no Nilo, Agatha Christie
  31. A Morte de Lorde Edgware, Agatha Christie
  32. The Bell Jar, Sylvia Plath
  33. Antologia Poética, Octavio Paz
  34. Learning to Breathe, Alison Wright


E espero dar este ano por encerrado.
Desta vez, não vou escrever sobre o ano passado e o ano que aí vem.
Não faço reflexões e, muito menos, penso no que quero vir a fazer no próximo ano.
Já tenho medo do que por aí vem, principalmente, porque amanhã, primeiro dia 2011, vou estar num velório.

Feliz ano novo a quem os tem.

Wednesday, December 22, 2010

carta ao pai #1

pappy,

amanhã faço anos. mas tu sabes isso. da mesma maneira que sabes que tenho falado contigo todos os dias desde que. era suposto irmos almoçar amanhã os dois, como fizemos durante tantos anos. era a única tradição pai-filha que tínhamos e daí sempre veio o facto de eu nunca trabalhar no meu dia de anos; dia de anos é para ir almoçar com o meu pai. mas vou visitar-te amanhã, logo de manhã. ainda não tive oportunidade de ir falar contigo a sós. tive receio que a mãe levasse a mal eu querer ir sozinha, mas ela disse que não se importava por eu querer ir sozinha amanhã.
não temos árvore de natal este ano. nem decorações de natal. nada. a única decoração que comprámos foi para a tua casa. fica lá até ao ano novo, depois compramos-te uma coisinha nova. a mãe quer fazer a campa já em fevereiro, para estar pronta para o teu aniversário. eu acho bem, vai ser em pedra escura e por mim, será alta. imponente. visível. ainda estamos é um bocado indecisas na foto, mas acho que todas pendemos mais para a mesma. eras mais novinho, mas não tinhas aquela ondinha meia parva do teu cabelo fazia na testa (o que eu gozei contigo).
tenho andando com o teu carro. já enchi o depósito duas vezes. sabes que o ponteiro ultrapassa o limite do cheio? enfim, acho piada. mas o depósito é mais pequeno do que o do meu carro, não é? é que pago sempre menos. mas tem-se portado muito bem e desembacia facilmente se ligares o ar condicionado um bocadinho, tu é que nunca usavas aquilo, mas pronto, manias tuas. 
a mãe tem andando a fazer coisas malhas, é a maneira dela se entreter. ainda começou a ler um dos livros que eu te tinha comprado, mas sabes que é mais outra onda. mas eu já li os três. acho que terias gostado deles. comecei pelo único que tinhas começado a ler.
bem, amanhã vou lá visitar-te (vou tentar não me esquecer do isqueiro, é que a tia bia comprou velas para todos e já agora, vou ver se ainda estão acesas) e ver se não precisas de flores novas ou se está tudo em ordem. depois falamos melhor também.

agora, vou indo, a marisa mandou-me mensagem. deve vir cá com a tia.

p.s. espero que não aches que andemos a abusar com as flores, é só que eu, pelo menos, não quero que alguma vez sintas que descuramos a tua casa. além disso, no outro fim-de-semana o joão paulo e o maia também te deixaram lá um ramo de flores e tu, de certeza, que não te chateaste por isso.

beijinhos grandes.

da "fila".


Wednesday, December 08, 2010

# 94

no dia 2, pensei que pudesse ser um mês mau. na noite do dia 6 e no dia 7, tive a confirmação.

a vida #20

às vezes apercebo-me da morte do meu pai. e não consigo respirar.

Monday, November 29, 2010

a vida #19

e às vezes, de repente, apercebo-me do quão silenciosa esta casa ficou. sem ti, pai.

Monday, November 22, 2010

a vida #18

o meu pai morreu à minha frente, enquanto eu segurava a mão dele. há mais de uma semana. enterrei o meu pai. eu sei isso. não quero ser mal interpretada. eu sei que o meu pai morreu. apenas não acredito nisso. ainda fico à espera de ouvir a chave rodar na porta, ou que ele me chame para dizer alguma coisa engraçada que ele se lembrou. e temos ainda de combinar como vamos fazer a salamandra na sala, ainda este ano. e falar de como a bárbara é toda desengonçada a andar. e no dia 13 de dezembro, vamos à consulta, falar com o doutor miguel e ele, certamente, vai-nos falar da infecção respiratória grave que o meu pai teve no fim-de-semana passada. e vamos, seguramente, discutir as opções de tratamento seguintes, porque ainda temos tanto pela frente. eu sei que o meu pai morreu. só não sei como viver com tanta vida dele pendente e entrelaçada na minha.

Wednesday, November 17, 2010

órfão.

adjectivo que perdeu pai e mãe, ou um deles
figurado desamparado, abandonado
figurado privado



1949 - 2010


Wednesday, November 10, 2010

a vida #17

não se fala nesta casa. porque estamos sempre bem. não se partilha nesta casa. se há problemas, esses não cabem na mesa, durante as refeições. não cabem nas respostas sobre os dias que tivemos, porque ninguém quer saber do dia que tivemos. e se choramos, escondemos a cara entre as mãos, ou entre 4 paredes, sozinhos. sempre sozinhos, porque estamos sempre bem. mas quando falamos, ah, quando falamos, é como se nunca tivéssemos derramado aquelas lágrimas, ou como se nunca não tivéssemos respondido à pergunta que uma filha pode colocar a uma mãe. mas isso, meia hora depois, já não interessa. porque não há qualquer problema e estamos sempre bem. os níveis de saturação começam a esgotar-nos a todos. todos nos queixamos uns dos outros; a mãe queixa-se do pai, o pai queixa-se da mãe, e certamente um deles (ou os dois) se queixa de mim. mas não conversamos. até porque mesmo quando falamos, ignoramos. não ouvimos. não assimilamos. não queremos saber. a mãe vai continuar a implicar com tudo o que o pai faz; o pai vai continuar a implicar com a mãe não o deixar sossegado. eu? do lado do pai, sempre que posso. sempre que posso digo-lhe que não faz mal ele querer ficar deitado e nunca o obrigo a comer. eu, quando era pequena, também nunca queria comer e o pai dizia à mãe para não me obrigar a comer. e, assim, somos um para o outro. quem me conhece bem, sabe que não morro de amores pela minha mãe e dizem que é uma coisa horrível de se dizer e tudo o mais. mas, não foram criadas pela minha mãe, não vivem com ela. por isso, não fazem ideia do que estão a falar. é como quando as pessoas me perguntam pelo meu pai. eu entendo, genuinamente, a preocupação das pessoas, o interesse, o quer que seja. eu faço o mesmo, quando pais/amigos/familiares de amigos passam por algo de mal. também pergunto, também me interesso. mas ultimamente, o ponto de saturação tem aumentado. e quando me perguntam pelo meu pai, a primeira que me ocorre dizer é "bem, está a morrer... mas isso estamos todos, mas ele está a morrer mais rapidamente e com mais sofrimento." mas não digo. não digo, porque a principal saturação não é com essas pessoas que perguntam. a minha maior saturação é com a minha mãe, que tudo sabe e tudo afirma e tudo controla. não sei como estas coisas se processam, porque só posso falar do que conheço, mas sempre pensei que seria a pessoa doente a massacrar mais os que estão em redor. mas nós não falamos de coisas importantes, porque não vale a pena. e como não falamos com quem mais sabe da situação, quando falamos com quem está por fora, com quem se interessa por nós e se preocupa com as nossas horas de sono, a sensação que me dá é que eu estou completamente sozinha. a ideia de que os filhos são protegidos pelas mães, que as mães olham pelos filhos e que esses vêm sempre em primeiro lugar não passa de teoria. na prática, os filhos olham bastante pelos pais e, por isso, eu não falo com os meus pais sobre as coisas importantes. eles até poderiam saber compreender-me melhor que ninguém, mas nós não falamos. nós encolhemos os ombros ou abanamos a mão em "assim-assim". é como comunicamos. não falo com a irmã, porque há coisas e coisas. umas coisas são histórias de uma adolescência perdida que não vivemos em conjunto, mas que fomos conjugando com o passar do tempo, outras são, por exemplo, a vida do pai que nos criou. disso não falamos, falamos de decisões médicas, de consultas e exames. mas nunca do que podemos sentir. nunca. por isso, resta-me quem está por fora, que não sabe, não tem como saber, o que isto é. e eu posso até partilhar, que não tenho problemas com isso. contei a quem quis contar e chorei com quem quis chorar. mas aquilo que se calhar muita gente não se apercebe é que eu sinto-me sozinha a cada minuto que passa, porque não tenho ninguém "comigo". mas não falamos cá em casa. onde possivelmente nos fossemos entender melhor. não falamos uns com os outros. falamos da chuva que vai cair ou do vento que vai fazer, falamos de quem veio e quem vem visitar. falamos de dores, de quantidades de comida. coisas mais quantificáveis. do que sentimos? nunca. até porque aqui por casa, estamos sempre bem.